
Busto romano de Marco Túlio Cícero. O orador máximo da latinidade clássica volta hoje à tribuna do Mirante News para tratar de uma virtude esquecida — a obrigação republicana de quebrar o silêncio.
Da arte de calar quando se deveria falar — sobre o silêncio dos honestos como combustível dos venais
Há uma virtude moderna que os antigos não conheciam, ó cidadãos da nova Roma do planalto, e que vale a pena examinarmos com atenção antes que ela continue a corroer a vida pública desta República. Chama-se prudência. Não a prudência de Cícero, nem a de Cipião, nem a do magistrado romano que pesava as consequências antes do veredicto — não, essa prudência antiga era virtude. Falo de outra prudência, mais nova, mais covarde, e infinitamente mais perigosa: a prudência que ensina o cidadão honesto a calar diante do desvio alheio para não 'criar caso', para não 'se comprometer', para não 'arrumar inimigo'.
Permiti-me, ó pais conscritos desta República, abrir hoje a coluna com uma confissão que talvez os surpreenda vindo de quem fui em vida.
Eu fui orador, sim. Defendi causas no foro, denunciei traidores no Senado, escrevi tratados e cartas em quantidade que ninguém mais escreve. Mas o que me trouxe a glória — e, depois, a morte — não foi o que disse. Foi aquilo que recusei calar quando todos ao meu redor calavam.
Há uma diferença, ó cidadãos, entre falar muito e falar quando se deve. A primeira é vaidade; a segunda é dever. E a República, quando perde o segundo, não se salva pelo primeiro.
Do silêncio que constrói o tirano
Marco Antônio, contra quem escrevi as minhas Filípicas e por quem acabei sendo morto às margens da via Ápia, não chegou ao poder sozinho. Chegou porque centenas de senadores romanos, homens honestos pelos padrões medianos da época, decidiram, um a um, que aquele não era o momento de falar. Cada um teve a sua desculpa particular. Um tinha família a proteger. Outro tinha processos pendentes que dependiam do humor do triúnviro. Outro ainda achava que falar não adiantaria nada, porque os fatos falariam por si.
Pois bem: os fatos não falaram por si. Os fatos nunca falam por si. Os fatos precisam que alguém os erga, os nomeie, os ponha diante dos olhos públicos. Quando esse alguém não aparece, os fatos ficam onde estão, mudos, e o tirano segue construindo a partir do silêncio.
Foi assim, ó cidadãos, que perdi a República que jurei defender. Não pela espada de Marco Antônio. Pela enorme paciência cívica dos senadores romanos que decidiram que aquele dia ainda não era o dia certo para se manifestar.
E aquele dia, ó pais conscritos, nunca chegou para eles.
Da prudência que é virtude e da prudência que é desculpa
Há prudência e há prudência. É preciso distinguir, porque o uso moderno confunde as duas e a confusão custa caro.
A prudência verdadeira — aquela que os estoicos chamavam phronesis e que Aristóteles colocou entre as virtudes intelectuais — é a capacidade de julgar bem o momento, o tom, a estratégia da fala. O prudente não fala em qualquer momento. Fala no momento em que a fala produz efeito. Calcula. Pesa. Espera quando a espera é tática, ataca quando o ataque é necessário. É a virtude do general que sabe a hora de avançar e a hora de recuar.
A prudência falsa — essa que cresceu como cogumelo nas democracias contemporâneas — é outra coisa. É o nome que o covarde dá ao seu próprio medo para que o medo pareça respeitável. Não calcula nada. Não pesa nada. Apenas cala, sempre, sob pretexto de que o momento ainda não é o ideal. E o momento ideal, claro, nunca chega — porque o critério do que seria ideal é definido pelo próprio covarde, e ele se reserva o direito de mudar o critério a cada vez que algo se aproxima de obrigá-lo a falar.
É a prudência da serpente, não a do estadista. E enquanto for chamada de virtude, será praticada como tal.
Do magistrado que sabia mas não disse
Conheci, em Roma, um caso que ainda hoje me dói lembrar.
Houve um juiz — não direi o nome, porque a praeteritio exige que o orador finja não dizer aquilo que está dizendo — houve um juiz que assistiu, sentado em sua bancada, à compra sistemática de testemunhas em um processo de extorsão movido contra um governador provincial. Ele sabia. Sabia porque vira, com os próprios olhos, o intermediário entrar na sala do escrivão na manhã do julgamento. Sabia porque vira o sorriso de cumplicidade entre o réu e a primeira testemunha de defesa. Sabia porque vira, no dia seguinte, o escrivão chegar com casaco novo.
E o juiz, respeitável homem de toga, decidiu que não era o momento de denunciar. Argumentou consigo mesmo que precisava de provas mais sólidas. Argumentou que a denúncia, naquele momento, seria interpretada como politicamente motivada. Argumentou que sua reputação, construída ao longo de décadas, seria desperdiçada num escândalo que talvez não tivesse desfecho útil. Argumentou tudo o que o covarde elegante argumenta consigo mesmo quando não quer agir.
Resultado: o governador foi absolvido. Foi reeleito. Voltou para a província. E na província, livre da ameaça do tribunal, fez o que sempre faz quem foi salvo pela passividade dos honestos: multiplicou o crime, agora com a confiança de quem aprendeu que ninguém o impediria.
O juiz prudente, anos depois, escreveu um tratado de moral pública. Foi muito elogiado. Eu li o tratado. Era impecável na forma, vazio na substância. Faltava-lhe, ó cidadãos, a única linha que importava — a confissão de que ele soubera, e calara, e com o silêncio dele sustentara o resto.
Da honra como ato, não como atributo
Aqui está, segundo penso, o ponto que vale erguer com a maior clareza possível: honra não é coisa. Honra é gesto.
Quando falamos da honra de um homem como se fosse uma medalha permanente, presa ao peito dele desde o berço por mérito da família ou da formação, falsificamos o conceito. A honra não se herda. A honra não se acumula como capital. A honra se exerce no instante, e o instante em que se exerce é precisamente o instante em que falar custa caro.
Honra é o contrário da prudência falsa. Honra é o juiz que denuncia o escrivão sabendo que será removido do tribunal. Honra é o senador que enfrenta o triúnviro sabendo que será proscrito. Honra é o cidadão comum que recusa colaborar com a fraude pequena, mesmo sabendo que a recusa lhe custará o emprego da semana seguinte.
Quem nunca pagou nada pela própria honra ainda não a exerceu. Pode tê-la, em potencial, como temos todos — mas só sabe que a tem quando, no momento certo, for chamado a pagá-la.
E é por isso, ó pais conscritos, que a República adulta precisa não apenas de honestos, mas de honestos que falem. O honesto silencioso é, do ponto de vista institucional, indistinguível do venal. Ambos calam. Ambos toleram. Ambos permitem. A diferença subjetiva — o que cada um sente por dentro — não chega às consequências públicas. As consequências públicas são governadas pelo gesto, não pela intenção.
Da nova Roma e do seu silêncio bem-educado
Concluo, e concluo virando-me uma vez mais, como o orador antigo, diretamente ao cidadão de Brasília que lê esta coluna pela manhã, do café da Esplanada ou da varanda do apartamento, antes de descer para mais um dia de trabalho na máquina pública desta República.
Tu, cidadão, sabes coisas. Sabes mais coisas do que admites saber. Sabes do colega que repassa informação privilegiada para fora do gabinete. Sabes do superior que cobra favor para liberar processo. Sabes do contrato que foi vencido por quem não tinha técnica nenhuma e prometeu a comissão certa. Sabes disso e mais.
E tu, como o juiz romano da minha anedota, encontras todos os dias um motivo elegante para calar. Família. Carreira. Reputação. O momento que ainda não chegou. O risco que não compensa.
A mim me cabe lembrar-te, do alto desta tribuna improvável, que cada um desses motivos foi inventado pelo medo, e que o medo, quando se veste de virtude, vira a maior força destruidora da República.
Não te peço, ó cidadão, que sejas mártir. Mártires são raros e nem sempre necessários. Peço-te apenas que, no próximo momento em que tiveres de escolher entre falar e calar, lembres-te de que o silêncio dos honestos é o combustível principal dos venais, e que cada calar teu é, no balanço da República, um voto a favor de quem tu, mais do que ninguém, gostarias de derrotar.
Não há outra forma de derrotá-los.
A história, que tudo observa, julgará. E não absolverá o silêncio.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
12 Dimensões
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.