
Sexta-feira, quase dez da noite, altura da 108 Sul: o asfalto que passou o dia cortando carros a oitenta por hora agora recebe skate, patins e caixa de som aberta.
O Eixão dorme às sextas: o fenômeno dos rolês espontâneos que tomou Brasília
Passei a vida rodando esta cidade de volante na mão. Tenho taxímetro antigo, tenho rádio de aplicativo novo, tenho calo no cotovelo de tanto apoiar na janela. E mesmo assim, toda sexta, quando desço o Eixão depois das nove, eu paro de entender o que estou vendo.
Passei a vida rodando esta cidade de volante na mão. Tenho taxímetro antigo, tenho rádio de aplicativo novo, tenho calo no cotovelo de tanto apoiar na janela.
E mesmo assim, toda sexta, quando desço o Eixão depois das nove, eu paro de entender o que estou vendo.
Parece festa, mas ninguém convocou. Parece show, mas não tem palco.
Parece protesto, mas ninguém está com raiva. É só gente.
Gente de bicicleta, gente de patins, gente de skate, gente sentada em cadeira de praia no canteiro central, gente com caixinha de som ligada no porta-malas tocando um funk consciente, um sertanejo universitário, um Raul Seixas que veio de onde eu não sei.
Um ritual que ninguém criou
O Eixão do Lazer de domingo, com a via fechada pela administração, todo mundo conhece. Existe há décadas, tem decreto, tem horário, tem ambulância de plantão.
O que acontece na sexta à noite é outra coisa. Não tem decreto.
Não tem horário oficial. Não tem ambulância de plantão.
Ainda assim, começou a acontecer. Primeiro foi um grupo pequeno de ciclistas que combinava pedal noturno pelo aplicativo.
Depois veio o pessoal do longboard descendo de Taguatinga. Depois os food trucks, que farejam movimento como urubu fareja estrada.
Depois as famílias, que descobriram que criança dorme melhor depois de correr no asfalto vazio.
Hoje, segundo estimativa do Instituto Brasília Ambiental, passam pelo Eixão Sul entre o fim de tarde e a meia-noite de sexta cerca de 12 mil pessoas em atividades de lazer. Não é manifestação.
Não é evento. É rotina.
O que estava lá antes
| Hora da sexta | Tipo de fluxo | Ritmo | |---------------|--------------|-------| | 17h às 19h | Carro saindo do trabalho | Congestionado | | 19h às 21h | Volume de tráfego cai | Transição | | 21h às meia-noite | Bicicleta, skate, pedestre | Lazer espontâneo | | Meia-noite em diante | Carro esparso, lazer termina | Volta ao normal |
O Eixão é uma via expressa. É a espinha motorizada do Plano Piloto.
Foi pensado, na cabeça de Lucio Costa, como um rio de automóveis cortando a cidade de norte a sul. E ele funciona assim, na maior parte do tempo.
O que mudou é que, por volta das nove da noite da sexta-feira, o rio seca.
O tráfego cai porque o trabalhador já chegou em casa, o comércio já fechou, o morador do Lago Norte já atravessou a ponte, o funcionário público já engatou o fim de semana. O asfalto fica largo, escuro e quieto.
E aí alguém viu que dava para ocupar.
O pedaço das 100 Sul
O fenômeno se concentra, por razões que ninguém explicou direito, no trecho da 100 Sul à 300 Sul. Talvez porque ali a via é mais plana.
Talvez porque a iluminação é melhor. Talvez porque é perto dos bares da 408, da 409, dos restaurantes da Asa Sul que servem até tarde.
Os food trucks foram os primeiros a perceber o padrão. Hoje, entre oito e onze da noite de sexta, há pelo menos uma dezena de trailers instalados nos canteiros laterais vendendo hambúrguer, tapioca, caldo de cana, pastel de feira.
A Secretaria de Proteção da Ordem Urbanística fiscaliza o que pode, mas reconhece, em nota, que "o fenômeno tem natureza espontânea e envolve usuários legítimos da via em horário de baixa demanda veicular".
Tradução do burocratês: não tem como multar o Brasiliense por andar de bicicleta.
O Eixão como sala de estar
O que eu vejo da janela do carro, devagar, é uma cidade aprendendo a ocupar o próprio corpo. Brasília foi acusada, desde que foi inaugurada, de ser uma cidade sem rua.
Sem calçada de esquina. Sem praça de bairro.
Sem aquele convívio miúdo que a gente associa ao centro velho de Goiânia, de Belo Horizonte, do Rio.
E aí, quando ninguém estava prestando atenção, o asfalto do Eixão virou praça. Não é praça bonita, com bancos de ferro e chafariz.
É praça feia, cheia de mancha de óleo, com faixa amarela descascada e poste alto demais. Mas é praça.
Tem criança correndo. Tem cachorro puxando dono.
Tem casal de adolescente sentado no meio-fio compartilhando fone de ouvido. Tem velho andando devagar por prescrição médica.
O sociólogo Brasmar Araújo, que estuda uso de espaço público no Cerrado, chamou isso de "apropriação de brecha". A brecha é o tempo em que o asfalto descansa.
A apropriação é a gente ocupando essa brecha sem pedir licença.
Os riscos que ninguém quer falar
Claro que tem problema. Tem carro que entra na via achando que é horário normal e quase atropela ciclista.
Tem som alto que incomoda morador das quadras 100. Tem lixo de food truck que alguém precisa recolher.
Tem bicicleta sem refletor. Tem skate sem capacete.
Tem moleque achando que o asfalto largo é pista de arrancada.
A Política Militar de trânsito do DF registrou aumento de ocorrências de perturbação de sossego e pequenos acidentes no Eixão às sextas, mas em nenhum ano o número ultrapassou o patamar de eventos programados na cidade. O Detran-DF tem discutido internamente se cabe criar algum tipo de sinalização específica ou reforço de iluminação no horário.
Discute-se, mas com cautela. Porque todo mundo sabe: oficializar demais pode matar a coisa.
O que faz o Eixão da sexta ser o que ele é justamente a ausência de convocação.
O que um taxista vê
Eu pego passageiro na 302 Sul e ele me pede para descer o Eixão porque quer ver. Turista de Belo Horizonte, primeira vez em Brasília.
Olha pela janela e diz: "Mas isso aqui é espontâneo mesmo? Ninguém organizou?".
Eu digo que não. Ele fica quieto um tempo e depois fala, meio para ele, meio para mim: "Que cidade estranha".
É estranha. Sempre foi.
Cidade que foi desenhada em cima de fazenda, com eixo monumental, escala bucólica, superquadra padronizada. Cidade que as pessoas juraram que não ia ter alma porque foi feita na prancheta.
E aí, sessenta e poucos anos depois, a alma aparece onde ninguém pensou em colocar: no canteiro de uma via expressa, às nove da noite da sexta-feira, com caixa de som ligada e skate descendo a rampa.
Eu desligo o taxímetro. Encosto o carro na sombra da árvore do canteiro central.
Desço só um minuto para comprar um caldo de cana. O rapaz do trailer me cobra dez reais e me pergunta se eu quero gelo.
Eu falo que quero. Ele me dá o copo, olha para o movimento, e diz: "Toda sexta, hein, seu Valdir".
Pois é, eu respondo. Toda sexta.
Esta matéria integra a cobertura especial do Mirante News sobre a vida cotidiana de Brasília — pequenos retratos do que move a capital.
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