
Detalhe do retrato de Niccolò Machiavelli atribuído a Santi di Tito, hoje na Galleria degli Uffizi, em Florença
O príncipe e o prazo: por que mandatos curtos produzem mais decisões e menos ideologia
Escrevi O Príncipe em 1513, trancado em uma casa de campo em San Casciano, depois de ter sido afastado da Segunda Chancelaria da República de Florença. O livro nasceu como manual prático, não como tratado filosófico. Sua tese central, tantas vezes mal lida, não é que o fim justifica os meios. É mais simples e mais dura: o tempo disponível ao governante molda o tipo de decisão que ele consegue tomar.
Há uma distinção que faço logo nos primeiros capítulos de O Príncipe, entre principados hereditários e principados novos. Aos primeiros atribuo facilidade.
Aos segundos, dificuldade extrema — e, paradoxalmente, oportunidade. Um príncipe hereditário, escrevi, basta não se apartar dos costumes de seus antepassados para manter-se no poder.
Um príncipe novo precisa estabelecer tudo: instituições, alianças, reputação. Não tem o luxo de esperar a opinião amadurecer.
Deve agir enquanto o vento sopra, porque o vento dos humores populares é curto.
O leitor do século XXI pode achar esse raciocínio distante. Não é.
A lógica que descrevi para os principados novos aplica-se, quase sem adaptação, aos governantes contemporâneos cujo mandato é curto por força do calendário ou do acaso. Prefeitos que assumem em meio a eleições atrasadas.
Vice-presidentes que herdam um cargo por força de doença ou renúncia. Interventores federais que recebem uma missão de meses.
Governadores que tomam posse quando falta pouco para a próxima disputa. Em todos esses casos, o príncipe novo reencontra sua condição original: o prazo manda.
A urgência como filtro
Quando não há tempo de sobra, o governante descobre que certas decisões que antes pareciam complexas são, na verdade, simples. A complexidade era artifício de quem podia adiar.
Um ministro que sabe ter sete meses de exercício precisa escolher entre três ou quatro projetos e entregá-los. Um prefeito provisório que assume às vésperas de uma eleição precisa decidir, antes mesmo de ler todos os relatórios, quais obras vai inaugurar e quais vai apenas licitar.
O filtro da urgência é brutal, mas é um filtro que funciona.
Observei isso em Florença sob Pietro Soderini, gonfaloniere vitalício cuja queda acompanhei de perto. Soderini era homem prudente, honesto, respeitado — e por isso mesmo hesitante.
Seu prazo indefinido permitia postergar. Quando Julio II avançou com tropas papais sobre a Toscana, a República ainda deliberava em comissões.
Perdi meu cargo no dia da rendição. Aprendi que a deliberação infinita é a forma mais elegante de omissão.
O pragmatismo do curto prazo
Governar com poucos meses pela frente tem uma virtude que os governantes longos costumam desdenhar: reduz o peso da ideologia. Quando o horizonte é a próxima eleição, o governante precisa aceitar engenheiros, médicos, gestores de todas as filiações, desde que entreguem o que foi prometido.
Não há espaço para longas purgas, longas ascensões, longas adaptações de quadros. Quem sabe fazer entra; quem só sabe discursar sai.
Vi isso em Cesare Borgia, o personagem que uso como exemplo no capítulo VII do livro. Borgia, quando chegou à Romagna, herdou um território arrasado pelas facções.
Não tinha dois anos para repetir promessas. Escolheu Remirro de Orco, homem severo, para restabelecer a ordem pela força.
Quando a ordem foi restabelecida, mas o povo passou a temer o próprio Orco, Borgia mandou esquartejá-lo e expor as partes em praça pública. Fez isso em um sábado de manhã.
Os habitantes, conta-se, ficaram ao mesmo tempo aliviados e estupefatos. O objetivo estava cumprido: pacificada a Romagna, o temor necessário se transferiu do magistrado para o príncipe.
Não recomendo aos governantes contemporâneos que imitem Borgia em seus métodos. A moral mudou, os instrumentos do Estado mudaram, a imprensa mudou.
Mas a lógica que governa essas decisões curtas — escolher a melhor ferramenta para o objetivo imediato, descartá-la quando deixa de ser útil, sem sentimentalismo — continua sendo a lógica que distingue quem entrega de quem apenas ocupa.
A tabela do tempo
| Horizonte do governante | Comportamento típico | Risco dominante | |---|---|---| | Menos de 12 meses | Ação imediata, foco em entregas tangíveis | Atropelo, erro por pressa | | 2 a 4 anos | Balanço entre planejamento e execução | Dispersão em prioridades | | 5 a 8 anos | Tentativa de reformas estruturais | Captura por grupos de interesse | | Mais de 10 anos | Consolidação, paternalismo, desgaste | Esclerose institucional |
A tabela, eu diria hoje, simplifica demais. Mas contém uma verdade que pode ser testada.
Os grandes reformadores da história europeia, quando contados por decretos efetivamente implementados em vez de planos apresentados, costumam concentrar suas realizações nos primeiros três anos. Depois vem a gestão do que foi feito.
Quem sobra no poder vinte anos costuma ter vivido vinte vezes o primeiro ano.
Brasília à luz do tempo florentino
Olho de longe, com a distância que a morte proporciona, a situação de uma capital onde um chefe de governo assume com pouco menos de um ano pela frente. Não me cabe emitir juízo sobre a pessoa.
Cabe-me registrar o padrão. Governantes com esse horizonte costumam ser julgados injustamente pelos que esperavam transformações estruturais.
Não era isso que o cargo comportava. Comportava decisões pontuais, pragmáticas, por vezes impopulares entre os que sonhavam maior.
A história europeia dos últimos quinhentos anos registra diversos casos de interinos que, contra todas as expectativas, fizeram mais do que titulares de mandatos plenos. Charles V da França, que governou por apenas dezesseis anos mas reorganizou a administração real durante os primeiros três; Georges Clemenceau, que assumiu o gabinete em novembro de 1917 com a Primeira Guerra ainda aberta e conduziu a França à vitória em onze meses; Alcide De Gasperi, que sucessivamente montou oito gabinetes italianos curtos, cada um cumprindo função específica na reconstrução pós-guerra.
Em todos os casos, o prazo estreito foi tratado como virtude, não como limitação.
A lição que me ensinaram
Termino com uma humildade que raramente me concedi em vida. Escrevi sobre o governante ideal sem nunca ter sido governante.
Servi, aconselhei, observei, mas nunca empunhei o cetro. Minha análise do tempo como fator político é, portanto, análise de quem via de fora.
Vista de fora, porém, uma coisa fica clara: o príncipe que se sabe mortal age. O príncipe que se imagina eterno pondera.
Entre ambos, as cidades preferem quase sempre o primeiro, ainda que hesitem em admiti-lo.
Se há uma conclusão que ofereço a quem hoje governa com o relógio contra, é esta: aproveitem. O prazo curto é o único adversário que também é aliado.
Ele os liberta das longas negociações, dos longos compromissos, das longas transigências. Em troca, cobra resultados imediatos.
É um contrato duro, mas mais limpo do que qualquer outro disponível na política. A história, quando julgar, olhará para o que foi feito nesses meses.
Não para o que poderia ter sido feito em anos que não vieram.
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