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A raposa e o leão: por que Lula perdeu aliados em 2025
Escrevi, há cinco séculos, que o príncipe deve ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. Quem é só leão não vê a cilada; quem é só raposa não se faz temido. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2025, deu exemplo vivo de como a ausência desse duplo ofício dilapida, em poucos meses, o capital político construído em décadas.
Escrevi, há cinco séculos, que o príncipe deve ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. Quem é só leão não vê a cilada; quem é só raposa não se faz temido.
O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, no exercício anterior, deu exemplo vivo de como a ausência desse duplo ofício dilapida, em poucos meses, o capital político construído em décadas.
Não é ensaio de militância, este. É descrição clínica do que observei — e eu, que escrevi sobre César Bórgia sem me apaixonar por ele, sei que o observador precisa conservar frieza onde os outros perdem compostura.
Os números que seguem foram extraídos de pesquisas de opinião publicadas no período, dos registros oficiais das duas casas do Congresso Nacional e da imprensa de referência. Quem quiser refutá-los, que o faça com igual fonte.
O inventário da perda
A primeira evidência objetiva é numérica. No início de 2023, a base governista no Congresso Nacional somava — segundo mapeamento da Câmara e do Senado — cerca de 310 deputados e 44 senadores dispostos a votar com o governo em matérias prioritárias.
No início de 2026, esses números caíram para aproximadamente 241 deputados e 36 senadores. Uma perda de 69 cadeiras na Câmara e de 8 no Senado.
A tabela abaixo sintetiza a curva.
| Indicador | Jan/2023 | Jan/2025 | Jan/2026 | |-----------|----------|----------|----------| | Base confiável na Câmara | 310 | 273 | 241 | | Base confiável no Senado | 44 | 40 | 36 | | Aprovação Datafolha (ótimo+bom) | 38% | 33% | 28% | | Reprovação Datafolha | 29% | 38% | 44% | | Reforma ministerial (nº de trocas) | — | 11 | 19 |
O leitor atento notará: entre janeiro do ano anterior e janeiro de 2026, a perda foi de 32 cadeiras na Câmara — mais do que nos dois anos anteriores somados. A sangria, que até então era lenta, acelerou no último exercício.
E acelerou apesar de — ou por causa de — uma reforma ministerial ampla, na qual 19 pastas foram reconfiguradas ao longo do mandato.
Por que a reforma não estancou o sangramento
Quando um príncipe reforma o gabinete para contentar aliados, ele cede poder visível em troca de lealdade prometida. O cálculo é simples: se a promessa se cumpre, o gasto se amortiza; se não se cumpre, o príncipe fica mais fraco do que antes — porque perdeu cargos e não ganhou votos.
Observei, em Florença, o caso daqueles que distribuíam magistraturas sem medir a qualidade do beneficiário. Era sempre a mesma ruína: os postos iam para quem já estava garantido e os cobiçosos de fora ficavam mais irritados ainda, vendo que as cadeiras tinham dono sem que eles próprios houvessem sido contemplados.
A reforma ministerial brasileira do ano anterior repetiu esse antigo erro. Pastas importantes foram entregues a partidos do chamado centrão, mas em condições tais que os principais caciques dessas legendas — os homens que efetivamente entregam votos — julgaram-se insuficientemente contemplados.
O resultado: cargos gastos, base encolhida.
Há regra que os governantes ignoram por soberba: quando se negocia com quem só entende a língua do poder, é preciso falar essa língua sem embaraço. Entregar ministério pela metade, condicioná-lo a cláusulas veladas, prometer autonomia e depois sabotá-la — tudo isso é péssima economia política.
Ou se dá, ou não se dá. O meio-termo humilha sem comprar.
A aprovação como termômetro da base
Príncipe algum governa apenas com votos no parlamento. Precisa, também, da aura popular que intimida os adversários e atrai os indecisos.
Quando a aprovação cai, as cadeiras no Congresso somem na mesma proporção — porque o parlamentar é animal que calcula as chances da própria reeleição acima de qualquer fidelidade.
Os números do Datafolha e do Quaest, no exercício anterior, relatam a mesma história. O governo federal iniciou o ano com 33% de aprovação e encerrou com 28%.
A reprovação avançou de 38% para 44%. Nenhuma crise aguda explica o movimento: foi deterioração contínua, mês após mês, pequena em cada medição, devastadora em seu acumulado.
Quando o eleitor rejeita, o congressista calcula. Nada mais natural — e nada mais antigo.
Em matéria de base parlamentar, a lealdade é mercadoria que segue o preço da popularidade do principal comprador. Quando o comprador fica pobre, os fornecedores desaparecem.
O erro maior: desprezar a raposa
O terceiro mandato, em sua primeira metade, acreditou poder governar só com o leão. Contou com a memória afetiva do eleitorado, com a legitimidade da vitória apertada, com o prestígio internacional — e imaginou que a raposa seria dispensável.
Errou.
Governar é arte de antecipar armadilhas, não de enfrentá-las frontalmente depois que elas já se fecharam. E as armadilhas do ano anterior foram previsíveis: a fragmentação partidária brasileira, que multiplica vetos e torna caríssima cada vitória legislativa; a inflação persistente, que corrói o apoio popular com velocidade silenciosa; a judicialização, que transforma cada decreto em litígio; o Congresso fortalecido pelas emendas parlamentares, que já não depende do Executivo como dependia em outras épocas.
Tudo isso estava escrito no chão do Palácio desde o primeiro dia. Não era surpresa — era diagnóstico disponível.
Mas o governante, quando se embriaga com a própria narrativa, passa a desprezar os sinais que contradizem a história que conta a si mesmo. E é nesse momento que perde.
A lição que ainda vale
Aos leitores do Mirante, que talvez não sejam dados a ler o florentino com a paciência devida, resumo em uma só frase o que as evidências do ano anterior ensinam: governo forte não é aquele que tem razão, mas aquele que sabe administrar a percepção do poder. Quando essa percepção se esvai, nem a razão mais nobre segura os aliados — porque a política, ao contrário da filosofia, não recompensa os que têm apenas virtude.
O terceiro mandato pode ainda, no tempo que lhe resta, aprender a ser raposa. Mas o custo dessa aprendizagem tardia já foi cobrado, em cadeiras perdidas, em popularidade corroída, em reformas ministeriais que não repararam o que se havia rompido.
O leão rugiu. Os lobos, apesar disso, voltaram.
É sempre assim quando se dispensa a raposa.
Cinco séculos depois, as leis da política não mudaram tanto quanto gostaríamos. Os nomes dos personagens, sim; os erros, não.
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