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O líder que muda de opinião a cada semana: ensaio sobre a inconsistência como vício político
Escrevi, há muitos séculos, que o príncipe deve ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos. Não escrevi, porém, que devesse ser cata-vento. A inconstância de propósito é, entre todos os vícios do governante, o que mais corrói a obra do tempo — porque dissolve aquilo de que toda autoridade depende: a fé de que a palavra dada vale alguma coisa.
Há uma confusão antiga, e que persiste nas idades, entre prudência e inconstância. O prudente revê seu juízo quando os fatos novos o exigem; o inconstante muda de rumo porque mudou o vento, ou porque ouviu, ontem à noite, uma voz mais alta do que aquela que escutara pela manhã.
Esses dois vícios — porque a prudência leva ao primeiro nome quando se converte em hábito de retratação — distinguem-se por um traço sutil mas decisivo: o primeiro guarda relação com a realidade, o segundo apenas com a vaidade do próprio movimento.
A virtude perdida do propósito
Os antigos chamavam-na constantia. Era, para Cícero, a quarta virtude cardeal junto com a prudência, a justiça e a fortaleza — embora tantas vezes confundida com esta última.
A constância não é teimosia. Teimoso é o que persiste no erro depois de o ver; constante é o que mantém o propósito justo apesar dos custos que ele impõe.
Marco Aurélio, que governou um império enquanto escrevia para si mesmo nas margens da noite, deixou registrado que o homem deve ser como o promontório contra o qual as ondas se quebram sem cessar — não porque despreze o mar, mas porque sabe que sua função é dar abrigo ao porto que se forma atrás dele.
A constância política, em sua forma mais nobre, consiste em manter direção quando ela se tornou impopular, e em revê-la apenas quando a evidência — não a comodidade — assim exige. É virtude difícil porque o governante vive cercado de adultos que aprenderam, desde meninos, a ler o desejo alheio antes de pronunciá-lo.
Ele é, no dizer de Tácito, o homem que jamais ouve a verdade inteira, porque os que a sabem têm motivo para calá-la.
A república que se cansa de seu próprio chefe
Observei, em minha própria Florença, e li nos historiadores antes de mim, que nenhuma república sobrevive ao governante que muda de opinião a cada semana. Os romanos toleraram cônsules ásperos, generais cruéis, imperadores excêntricos e até alguns francamente loucos — toleraram porque, em meio à dureza, havia previsibilidade.
O súdito sabia o que esperar, o que temer, o que evitar. Sabia onde estavam as fronteiras invisíveis dentro das quais a vida se podia organizar.
| Tipo de governante | Grau de previsibilidade | Reação típica do povo | |---|---|---| | Justo e constante | Alta | Reverência | | Duro e constante | Alta | Temor respeitoso | | Justo e inconstante | Baixa | Desconfiança | | Duro e inconstante | Nenhuma | Desprezo |
A pior combinação não é, portanto, a do tirano severo — esse, ao menos, ensina os limites por onde não se deve passar. A pior é a do governante que hoje promete e amanhã desmente, que pela manhã proíbe e pela tarde absolve, que escolhe um aliado na segunda-feira para combatê-lo na sexta.
A esse, o povo perde primeiro a confiança, depois o respeito e, por fim, o medo — e quando o medo se vai sem que a admiração tenha vindo ocupar seu lugar, está-se na véspera da queda.
O cálculo dos cortesãos
A razão pela qual a inconsistência não se corrige sozinha é que ela serve, no curto prazo, aos interesses dos que cercam o príncipe. Quando o senhor muda de opinião a cada semana, multiplica-se o número de momentos em que se pode chegar até ele com uma sugestão nova.
O cortesão prospera na fluidez como o pescador prospera no rio cheio. A consistência, ao contrário, esvazia o palácio: quem já sabe qual será a resposta deixa de fazer a pergunta.
Por isso, à volta do governante instável, formam-se sempre mais conselheiros do que à volta do firme — e cada um deles tem interesse vital em que a instabilidade continue.
O cidadão comum, que não frequenta os corredores, percebe esse arranjo apenas pelos seus efeitos: ouve hoje uma promessa que amanhã será desmentida, e atribui a desmentir à malícia. Erra em parte.
A malícia existe, mas ela não é, em geral, do governante; é do conjunto que dele se alimenta e que precisa, para alimentar-se, manter a porta sempre aberta a uma nova sugestão.
A erosão da autoridade
Toda autoridade legítima repousa, em última instância, sobre a expectativa de que a palavra dada será cumprida. Não se obedece ao que não se respeita; não se respeita ao que não se compreende; não se compreende ao que muda de figura conforme o ângulo da luz.
A inconstância não é, portanto, defeito menor de personalidade — é solvente da própria substância de que o poder se faz.
Quando o governante decide hoje uma coisa e amanhã o contrário, três fenômenos sucedem-se na ordem necessária. Primeiro, os subordinados deixam de executar com prontidão, porque suspeitam que a ordem será revogada antes de cumprida.
Segundo, os aliados externos retiram seu apoio, porque calculam que qualquer pacto será dissolvido na primeira inconveniência. Terceiro, os inimigos ganham coragem, porque entendem que o adversário está dividido contra si mesmo.
Quando os três fenômenos se completam, a queda já está em curso, ainda que o cortejo do palácio continue a saudar o senhor pelos corredores.
A coerência não é dogmatismo
Há quem confunda a defesa da constância com elogio do dogmatismo. Não é assim.
O homem prudente revê suas convicções quando a realidade o desmente — mas o faz com método, com explicação, com humildade explícita. Anuncia que mudou, diz por que mudou, reconhece que a posição anterior já não se sustenta.
Essa retratação aberta fortalece, não enfraquece, a autoridade — porque demonstra que o governante distingue verdade de orgulho, e que prefere acertar tarde a errar para sempre.
O inconstante, ao contrário, não retrata: simplesmente passa a dizer outra coisa, como se nunca houvesse dito a anterior. Espera que o povo, distraído, não note.
Por algum tempo, o povo de fato não nota — vive ocupado de seus próprios afazeres, e a memória política é breve. Mas a soma das pequenas distrações vai-se acumulando no fundo da consciência coletiva como sedimento, e um dia o leito do rio amanhece raso, e ninguém sabe explicar quando começou a secar.
A lição que atravessa os séculos
Escrevi, no meu livro mais conhecido, que é melhor ser temido do que amado, se não se pode ser as duas coisas. Acrescento agora, com a vantagem dos séculos que passaram, uma cláusula que então me pareceu desnecessária e que hoje vejo essencial: melhor é, sobretudo, ser previsível.
Pode-se temer o lobo porque se sabe que ele morde; pode-se amar o cão porque se sabe que ele protege. O que se faz, porém, com o animal que ora morde, ora abana a cauda, e que muda de comportamento conforme a hora?
Aprende-se a evitá-lo. E o governante que se faz evitar pelo seu próprio povo já perdeu, antes de saber, a única batalha que importava — a da legitimidade que se constrói no tempo lento do hábito e que se desfaz, quando se desfaz, na rapidez de uma decisão contraditória de mais.
A história, que é maestra severa porque ensina sem repetir as aulas, oferece centenas de exemplos. Nenhum deles, que eu saiba, contradiz a regra.
O leitor que tem olhos para o presente saberá, sem que eu precise nomear ninguém, em quantos lugares do mundo essa regra está hoje sendo verificada — e a que custo, para os povos que a sofrem.
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